segunda-feira, 28 de abril de 2014

O troco

- O troco pode ser em bala?

 - Moça, deu 4,50 de troco.

 - Rs... é que estamos sem troco...

 - E sobrando bala, né?

 - Então o senhor pode aguardar eu atender o próximo cliente para te dar o troco?

 - Tá, né. Fazer o que.

 O cliente seguinte passa meia duzia de produtos e saca uma nota de cinquenta da carteira.

 - Aceita troco em bala?

 - Não dá. - responde o homem rispidamente.

 A caixa pede que aguarde atender o próximo cliente para fornecer o troco. O homem fica ao meu lado e me olha com cara de bravo por saber que eu vou ganhar o troco primeiro. Vemos que o outro cliente paga a compra com cartão. Sem troco. O seguinte aceita receber o troco em balas. Eram apenas 20 centavos.

A fila do caixa tem cerca de oito ou nove pessoas, cada uma com cinco ou seis produtos nas cestas. Incrivelmente todas pagam suas compras ou com o valor exato em dinheiro, em cartão ou aceitando as balas de troco. O cara ranzinza e eu continuávamos esperando.

 Uma funcionária chega ao lado da atendente do caixa e as duas cochicham. A funcionaria vem até nós e explica que o estabelecimento está passando por dificuldades e no momento não possui dinheiro suficiente para trocos altos. Enquanto ela tenta se explicar um outro rapaz, creio que da minha idade, chega, também pela falta de troco. A funcionaria pede que aguardemos mais alguns minutos que o problema logo seria sanado.

Enquanto isso eu olhava pra fila preocupado com as pessoas ali. Tinha medo que a senhora com o bebê também tivesse que esperar. Tinha medo que alguma daquelas malditas balas fizessem o filho de alguém engasgar. Tinhas medo de ficar preso ali o resto da vida por causa de R$4,50. Nenhum de nós conversa. Acho que nos sentíamos como idiotas a espera de dinheiro. Tínhamos bons motivos para querer aquelas cédulas e moedas. Eu já tinha calculado, antes de sair de casa, para comprar uma bebida com o troco. O rapaz da minha idade, provavelmente, não podia voltar para casa faltando grana se não apanharia de sua tia adotiva. O velho resmungão tinha cara que morava sozinho, e juntaria o dinheiro para poder pagar a prostituta do mês.

 Chegaram mais duas pessoas seguidas. Um moleque que parecia estar na mesma situação do rapaz da minha idade tendo que dar o troco para a mãe. A outra era uma garota, também da minha idade, com roupas pretas, unhas pretas, sombra de olho preta, cabelo preto e batom vermelho.

Em certo momento não havia mais ninguém para ser atendido.  Olhei na minha sacola de compras e peguei a garrafa de vinho branco que tinha comprado. Era vagabundo como a minha esperança de sair dali. Sorte que era de rosca. Abri e dei uma boa golada.

 - Tá afim? - perguntei pra garota.

 - Vinho branco? - ela perguntou.

 - Na verdade minha mãe mandou eu comprar.

 - Eu perdôo ela. - Pegou a garrafa e também tem uma boa golada.

 O moleque e o rapaz me olharam como se eu tivesse me ferrado. Minha mãe ia acabar comigo por beber seu vinho, era verdade. Ofereci um gole e eles aceitaram. Eles eram a minha turma. A galera da espera. A galera do troco. Começava a gostar deles. O homem ranzinza parecia ter envelhecido enquanto estávamos ali. Olhou com cara feia e disse quase resmungando:

 - Acho que não pode beber aqui.

 - Não tô nem aí. - respondi não dando muita atenção.

 - É, foda-se! - a garota gritou na cara do velho.

 - Você me respeite sua putinha! - gritou respondendo. Eu sabia que ele entendia de putas. Reconheço o tipo até de longe. Era dos meus. Me imaginei velho e ranzinza como aquele cara. Fiquei com vontade de perguntar qual casa ele frequentava.

 Então o gerente Roberto chegou.

 - O que está acontecendo aqui?

 - Só uma pequena discussão. Mas me diga, quem é você? - perguntei já tropeçando com a língua por causa do vinho.

 - Sou o gerente. Me chamo Roberto.

 - Bem. Roberto. Estamos aqui a 45 minutos esperando nossos trocos. Me dê o meu troco ou me arranje outra garrafa de vinho! Eu exijo! - eu estava tentando impressionar a turma.

 - Vá com calma, meu jovem. Você é um irresponsável! Pensa que não vi? Você deixou o garoto beber desse vinho! Ele tem o que? Doze ou Treze anos?

 - 14! - gritou o garoto, já bêbado.

 - Quem deu o vinho pra ele foi eu, seu careca! - gritou a garota estufando o peito.

 - Eu deveria chamar a policia pra vocês! - gritou o gerente Roberto. Eu não tinha reparado na sua careca. Era bem lustrosa e brilhante. O velho ranzinza empurrou a garota e encarou o gerente.

 - Se é pra alguém chamar a policia aqui sou eu. Vocês estão querendo roubar nosso troco.

 O gerente se virou para a caixa que olhava a discussão e perguntou quanto cada um deveria receber. Ela exitou um pouco, mas logo pegou um caderninho onde havia anotado tudo. Seu nome era Cileide. Deveria ficar ótima fora daquele uniforme amarelo.

- São R$4,50 para o rapaz do vinho, R$23,14 para o moço, R$2,20 para o de camiseta vermelha, R$2,25 para o garotinho e R$8,16 para a garota.

Cileide era realmente sensacional. Que jeito de falar! Se tivesse reparado antes teria aceitado as balas para não lhe magoar. O gerente nos levou a uma sala. Era uma sala bem vagabunda, não tinha nada além de uma mesa e uma cadeira. Ele abriu uma gaveta na mesa com uma chave e começou a tirar moedas lá de dentro. Nos pagou. O valor exato. Não arredondou nada. Depois pediu para irmos embora e não voltasse mais.

Saímos e já estava escuro. Pra falar a verdade não lembra se era de dia quando entrei. Estávamos todos juntos. Unidos. A turma. Estávamos íntimos. Perguntei:

 - Turma, o que vocês vão fazer com o troco de vocês?

 Ninguém respondeu.

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