- O troco pode ser em bala?
- Moça, deu 4,50 de troco.
- Rs... é que estamos sem troco...
- E sobrando bala, né?
- Então o senhor pode aguardar eu atender o próximo cliente para te dar o troco?
- Tá, né. Fazer o que.
O cliente seguinte passa meia duzia de produtos e saca uma nota de cinquenta da carteira.
- Aceita troco em bala?
- Não dá. - responde o homem rispidamente.
A caixa pede que aguarde atender o próximo cliente para fornecer o troco. O homem fica ao meu lado e me olha com cara de bravo por saber que eu vou ganhar o troco primeiro. Vemos que o outro cliente paga a compra com cartão. Sem troco. O seguinte aceita receber o troco em balas. Eram apenas 20 centavos.
A fila do caixa tem cerca de oito ou nove pessoas, cada uma com cinco ou seis produtos nas cestas. Incrivelmente todas pagam suas compras ou com o valor exato em dinheiro, em cartão ou aceitando as balas de troco. O cara ranzinza e eu continuávamos esperando.
Uma funcionária chega ao lado da atendente do caixa e as duas cochicham. A funcionaria vem até nós e explica que o estabelecimento está passando por dificuldades e no momento não possui dinheiro suficiente para trocos altos. Enquanto ela tenta se explicar um outro rapaz, creio que da minha idade, chega, também pela falta de troco. A funcionaria pede que aguardemos mais alguns minutos que o problema logo seria sanado.
Enquanto isso eu olhava pra fila preocupado com as pessoas ali. Tinha medo que a senhora com o bebê também tivesse que esperar. Tinha medo que alguma daquelas malditas balas fizessem o filho de alguém engasgar. Tinhas medo de ficar preso ali o resto da vida por causa de R$4,50. Nenhum de nós conversa. Acho que nos sentíamos como idiotas a espera de dinheiro. Tínhamos bons motivos para querer aquelas cédulas e moedas. Eu já tinha calculado, antes de sair de casa, para comprar uma bebida com o troco. O rapaz da minha idade, provavelmente, não podia voltar para casa faltando grana se não apanharia de sua tia adotiva. O velho resmungão tinha cara que morava sozinho, e juntaria o dinheiro para poder pagar a prostituta do mês.
Chegaram mais duas pessoas seguidas. Um moleque que parecia estar na mesma situação do rapaz da minha idade tendo que dar o troco para a mãe. A outra era uma garota, também da minha idade, com roupas pretas, unhas pretas, sombra de olho preta, cabelo preto e batom vermelho.
Em certo momento não havia mais ninguém para ser atendido. Olhei na minha sacola de compras e peguei a garrafa de vinho branco que tinha comprado. Era vagabundo como a minha esperança de sair dali. Sorte que era de rosca. Abri e dei uma boa golada.
- Tá afim? - perguntei pra garota.
- Vinho branco? - ela perguntou.
- Na verdade minha mãe mandou eu comprar.
- Eu perdôo ela. - Pegou a garrafa e também tem uma boa golada.
O moleque e o rapaz me olharam como se eu tivesse me ferrado. Minha mãe ia acabar comigo por beber seu vinho, era verdade. Ofereci um gole e eles aceitaram. Eles eram a minha turma. A galera da espera. A galera do troco. Começava a gostar deles. O homem ranzinza parecia ter envelhecido enquanto estávamos ali. Olhou com cara feia e disse quase resmungando:
- Acho que não pode beber aqui.
- Não tô nem aí. - respondi não dando muita atenção.
- É, foda-se! - a garota gritou na cara do velho.
- Você me respeite sua putinha! - gritou respondendo. Eu sabia que ele entendia de putas. Reconheço o tipo até de longe. Era dos meus. Me imaginei velho e ranzinza como aquele cara. Fiquei com vontade de perguntar qual casa ele frequentava.
Então o gerente Roberto chegou.
- O que está acontecendo aqui?
- Só uma pequena discussão. Mas me diga, quem é você? - perguntei já tropeçando com a língua por causa do vinho.
- Sou o gerente. Me chamo Roberto.
- Bem. Roberto. Estamos aqui a 45 minutos esperando nossos trocos. Me dê o meu troco ou me arranje outra garrafa de vinho! Eu exijo! - eu estava tentando impressionar a turma.
- Vá com calma, meu jovem. Você é um irresponsável! Pensa que não vi? Você deixou o garoto beber desse vinho! Ele tem o que? Doze ou Treze anos?
- 14! - gritou o garoto, já bêbado.
- Quem deu o vinho pra ele foi eu, seu careca! - gritou a garota estufando o peito.
- Eu deveria chamar a policia pra vocês! - gritou o gerente Roberto. Eu não tinha reparado na sua careca. Era bem lustrosa e brilhante. O velho ranzinza empurrou a garota e encarou o gerente.
- Se é pra alguém chamar a policia aqui sou eu. Vocês estão querendo roubar nosso troco.
O gerente se virou para a caixa que olhava a discussão e perguntou quanto cada um deveria receber. Ela exitou um pouco, mas logo pegou um caderninho onde havia anotado tudo. Seu nome era Cileide. Deveria ficar ótima fora daquele uniforme amarelo.
- São R$4,50 para o rapaz do vinho, R$23,14 para o moço, R$2,20 para o de camiseta vermelha, R$2,25 para o garotinho e R$8,16 para a garota.
Cileide era realmente sensacional. Que jeito de falar! Se tivesse reparado antes teria aceitado as balas para não lhe magoar. O gerente nos levou a uma sala. Era uma sala bem vagabunda, não tinha nada além de uma mesa e uma cadeira. Ele abriu uma gaveta na mesa com uma chave e começou a tirar moedas lá de dentro. Nos pagou. O valor exato. Não arredondou nada. Depois pediu para irmos embora e não voltasse mais.
Saímos e já estava escuro. Pra falar a verdade não lembra se era de dia quando entrei. Estávamos todos juntos. Unidos. A turma. Estávamos íntimos. Perguntei:
- Turma, o que vocês vão fazer com o troco de vocês?
Ninguém respondeu.